O início do início

Como é que isto começou? Com um devaneio da minha parte, claro!

Lembro-me perfeitamente do diálogo naquele Jantar de Natal da empresa, na noite de 16 de Dezembro de 2016, quando alguns colegas de trabalho que já há muito andam nesta vida da corrida me tentavam convencer a começar:

“- No dia em que vocês correrem 10min em vez de 10km, sim, eu acompanho-vos.”

A verdade é que tinha vontade de fazer exercício mas corrida!? Não era a minha onda. Sempre disse que para correr tinha de ter um objetivo: fintar e colocar a bola na baliza; driblar e encestar; fugir de um predador que me persegue a meio da noite (temos de colocar todas as hipóteses em cima da mesa, certo?). Agora correr só porque sim? Que sentido fazia isso?

Sempre gostei de desporto, em criança era muito ativa. Fiz Remo durante uns 4 anos quando morava no Norte, no Sporting Clube Caminhense (ainda cheguei a ser terceira classificada nos nacionais em Coimbra!). Depois voltei-me para o Andebol, modalidade que ainda hoje adoro. Mais tarde, já no secundário, joguei futsal na equipa feminina da escola. Sim, eu sou aquele tipo de mulher que fica feliz com um final de tarde numa esplanada a beber imperiais e a ver um jogo de futebol. Querem conquistar-me? Levem-me ao estádio! :D

Depois chegaram os tempos de faculdade e o exercício físico abrandou. Parou vá. Vieram os quilos a mais mas o tempo a menos também era constante. Inscrevi-me em alguns ginásios mas acabava por desistir com desculpas (sim, são sempre desculpas) sem qualquer fundamento para justificar a minha preferência pela ociosidade. Hoje percebo que o ginásio é que não é a minha onda, mas na altura lembro-me de não entender os motivos da minha desmotivação. Os anos vão passando e acabamos por preferir moldar o sofá com as nossas curvas do que moldar as nossas curvas fora do sofá.

Foi no dia 20 de Dezembro, terça-feira, que me estreei nas corridas.

“- Vens e não se fala mais nisso. Veste qualquer coisa, calça umas sapatilhas e encontramo-nos às 6:45h na rotunda de Campolide.”

WTF?!?!? 6:45h?? Então e o meu sono de beleza? Monsanto? A minha primeira experiência em corrida vai ser tipo 'todo-o-terreno', a meio da noite e cheia de subidas, é isso? É. Foi.

À hora combinada lá estava eu, ainda com remelas nos olhos e a pensar «ONDE RAIO TE VIESTE METER?! A TUA CAMA CONTINUA A CHAMAR POR TI!». Não há muito para contar sobre este treino para além do facto de ter corrido, no máximo, 200m. O resto dos cerca de 6km foram feitos a andar, com pensamentos negativos de mim para o mundo, olhos postos no chão à espera do tronco onde iria tropeçar (o que inevitavelmente acabou por acontecer e consumou o fim trágico das únicas sapatilhas que tinha, umas NIKE velhinhas), respiração ofegante e ânsia pelo fim daquela experiência. Este treino nem sequer foi registado. Não conhecia o mundo das aplicações e, mesmo que conhecesse, o GPS do meu smartphone há muito que ficava no sofá sempre que eu saía de casa porque nunca funcionou convenientemente. Não tinha frontal. Não tinha o equipamento certo, nada! Mas também não era preciso porque esta era uma daquelas experiências para não mais repetir.

“- Quinta-feira treinamos outra vez, certo?”

(«Brincalhão…» - pensei eu enquanto sorria)

“- Oh eu até gostava (Oi? Que falsa!) mas estraguei as minhas sapatilhas e não tenho outras por isso não vai dar… Fica para outra altura.”

“- Quando saíres do trabalho passas na Decathlon e compras umas em condições. Vais ver que à medida que fores treinando vais gostar da sensação. Não sejas cortes!”

«Ouve lá! Qual é a parte que não percebeste que até foi giro pela vista e pelos esquilos mas quase vomitei os meus próprios pulmões e ainda não voltei a sentir as minhas pernas? Aliás, sinto demais!»

“- Ok, ok. Convenceste-me, eu vou.” (sou tão fácil!)

Foi assim que comprei as minhas ASICS. Sabem que mais? Foram as ASICS que me convenceram a continuar no mundo da corrida. Não porque com elas conseguisse correr mais ou melhor, ter mais força nas pernas e menos sofrimento no peito, mas porque dar 70€ por umas sapatilhas (algo que nunca fiz por nenhum tipo de calçado ou peça de roupa) era motivo mais do que suficiente para as agredir até mais não, ou seja, repetir forçosamente movimentos entre aquela sola e todo o tipo de terreno até elas sentirem as minhas dores!

E assim se iniciaram os meus treinos. Como dá para perceber a corrida passou de um sacrifício para uma atividade que faz parte do quotidiano (quase sempre) e, para ser sincera, não consigo explicar bem porquê, afinal tudo se traduz em sentimentos e sensações muito íntimas que, de uma forma ou de outra, nos trazem bem-estar físico e mental.

As minhas primeiras experiências foram gravadas com o smartphone cujo GPS é fraco. Muito fraco. Inexistente até. De tal forma que fiz verdadeiros brilharetes como este:

Sim, eu não achava estranho todos aqueles picos, afinal Monsanto é subir e descer interminavelmente

Ou este:
Aqui já achei um bocado estranho, não me lembrava de ter passado a 24 de Julho ou a Av. de Brasília (várias vezes, atenção!), muito menos de ter nadado...

  
Não percebia nada deste mundo e, imaginem só, andava iludida com estes tempos e achava que até corria qualquer coisa. Que ingénua!

Com o avançar dos treinos, conversas e leitura sobre o assunto percebi que não corria (e ainda não corro) nada! Eu diria que no dia em que fiz o meu primeiro treino com o meu querido relógio TomTom Runner 2 foi… Dececionante! Aliás, dececionante é uma palavra fraca e suave para traduzir o que senti quando percebi que eu não corria, eu arrastava-me pelo asfalto e rastejava nos trilhos, com tempos que só faziam inveja às tartarugas mais lentas deste planeta. Enfim.

Não desisti. Impulsionada pelos meus 'running misters' lá ia de treino em treino, melhorando a cada dia, não pensando muito em tempos e olhando mais para a resistência. Vejam o meu primeiro treino de 10km sem parar, praticamente morta:

Nesta altura para além das ASICS já tinha umas Puma

Grande tempo! (ou não...)

Foi no dia 2 de Fevereiro. Isto não é incrível?! Em mês e meio passei de correr 200m para (arrastar-me) 10km sem parar. O nosso corpo é realmente uma máquina, das melhores que por aí andam.

Com o passar das semanas comecei a promover objetivos para mim mesma. O primeiro foi fazer 10k sem parar e, a partir daí, melhorar o meu tempo para conseguir fazê-los em 60min. Infelizmente este último ainda não consegui atingir (e às vezes ainda duvido da minha capacidade para tal feito). Confesso que não sou uma atleta de velocidade. O meu corpo recusa-se a passar de um estado de gozo ao correr para um estado de 'superoxigenação' em que só quero terminar com aquele sofrimento atroz. Quando corro a um ritmo que ronda os 7min/km estou bem. Cansada, ofegante e a suar, sim, mas a sentir o prazer da corrida, a sentir as pernas e o coração ao mesmo tempo que aprecio a beleza envolvente e, às vezes, até a cantarolar algumas músicas da minha playlist. Tenho esperança que isto mude, tenho mesmo. 

Mas, para já, e agora a parte que vocês ainda não sabem, só quero terminar a Meia Maratona do Porto para a qual estou inscrita. Será a 17 de Setembro, está quase aí!

Comentários

  1. Confesso que quando vi os primeiros treinos fiquei a pensar: "mas ela começou a correr com este ritmo? uau!". Ahahahah!

    Nada de mal no teu ritmo "real", atenção, mas os primeiros eram mesmo impressionantes ;)

    O importante mesmo é ires vendo a tua evolução, em termos de distância e de ritmo, e, por isso, estás de parabéns!

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    1. Ahahahah eu também fiquei muito entusiasmada com os meus primeiros treinos. Se calhar até foi bom, motivação extra para continuar. Quando me deparei com a realidade olha... já gostava daquilo portanto não ia desistir mesmo! :D

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  2. Isso no Monsanto cheira-me a treino da Hora do Esquilo. Se foi, já é um começo com alguma dificuldade. :)
    Dizes muitas coisas que se ouvem com imensa frequência: correr só faz sentido se for com um objectivo, as desculpas para não ir ao ginásio, o horror que é quando se acaba o primeiro treino, mas acima de tudo o tal bem-estar físico e mental que uma pessoa que corre não consegue explicar por palavras. Sabe tão bem que se torna num vício bom. E esquece lá os tempos que isso é secundário e melhoram naturalmente com o treino. E mesmo que não melhorem, ganhas o tal bem-estar na mesma. Quando comecei também cheguei a fazer tempos desses em provas oficiais de 10km e acabei na mesma feliz da vida!

    Ah, e GPS de smartphone é para esquecer para corridas! E vivam as tardes de domingo a beber cerveja e a ver futebol! :)

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    1. Treio na Hora do Esquilo? Isso é impossível para mim neste momento, quem sabe um dia! :D Sabes que se há coisa que não gosto de todo é atrapalhar os treinos dos outros. Se sou mais lenta, porque sou, não tenho de obrigar aquelas lebres a correr à velocidade de uma tartaruga ou a preocuparem-se com um membro perdido na imensidão e escuridão de Monsanto. Estes treino fi-los com colegas de trabalho que, não sendo tartarugas, também não são lebres :)

      Hoje em dia cada vez que ouço os outros a usarem as desculpas e justificações que eu usava há uns tempos penso para mim «Que papel andavas tua a desempenhar, Fabiana?!» Quanto aos tempos é como diz aquela frase que cada vez admiro mais "Devagar ou rápido, 1km é sempre 1km!".

      Agora já tenho um TomTom Runner 2, acabaram-se os desvios inexplicáveis! :D

      Cerveja e futebol... A perfect ending!

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    2. Se eu tivesse um euro por cada vez que já ouvi alguém num treino dizer que "não quero incomodar"; "não te quero estragar o treino"; "não quero atrapalhar", etc... já me tinha reformado com mais dinheiro que o Cristiano Ronaldo ou o (inserir nome de político/banqueiro/etc corrupto)!
      Lá no grupo o lema é que ninguém fica para trás e o último é o mais importante. Às vezes até pedimos a quem faz esse tal km mais devagar para ir à frente a escolher o percurso e marcar o ritmo. Pensa ao contrário: para alguém que quer ajudar e se compromete a fazer um treino mais lento ouvir frases dessas quase que soa a desculpa. E eu estou à vontade para dizer isto porque já estive dos dois lados da "barricada". :)
      Continuo a dizer que o pior treino é aquele que não é feito. :)

      Cerveja e Benfica, melhor ainda. LOL

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  3. Nunca é tarde para começar (digo eu cuja primeira corrida faltava uma semana para fazer 46...)
    Depois... é deixarmo-nos contagiar por essas sensações que só quem corre compreende :)

    Há sempre um início para o que nos faz tão bem ao corpo e, especialmente, mente. O teu foi este e há-de levar-te a uma catadupa de objectivos.
    Força para o primeiro, o Porto!

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    1. Uma semana para os 46? wow!!! Essa parte parte das "sensações que só quem corre compreende" é tão verdade! :D Obrigada João!

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